Conversa do Presidente Mao com Músicos

Esta é uma conversa entre o Presidente Mao Tsé-tung, quadros da Associação Nacional de Músicos e outros camaradas.

Fonte: Vida Longa ao Pensamento Mao Tsé-tung, uma publicação da Guarda Vermelha, 1967

A arte de todas as nações do mundo é semelhante quanto aos princípios fundamentais, mas diferente quanto à forma e ao estilo. A arte dos vários países socialistas tem, em sua composição, o socialismo, mas, também, seu próprio caráter nacional. Eles têm similaridades e diferenças, características em comum e peculiaridades individuais. Esta é a lei natural. Todas as coisas se dão desta forma, sejam elas pertencentes à natureza, à sociedade, ou ao domínio do intelecto. Veja, por exemplo, as folhas de uma árvore: à primeira vista, todas parecem iguais, entretanto, quando examinadas de perto, cada uma é diferente; encontrar duas folhas idênticas é impossível.

A luta de classes, a revolução socialista a transição do capitalismo para o socialismo, têm os mesmos princípios fundamentais em todos os países. Porém, quando se trata das menores questões e manifestações que são dependentes de tais princípios fundamentais, cada país é distinto. A Revolução de Outubro e a Revolução Chinesa são assim. Os princípios fundamentais dessas revoluções são similares, mas, com relação à forma com que esses princípios se manifestaram, há várias diferenças. Na Rússia, por exemplo, a Revolução se desenvolveu das cidades para o campo, enquanto na nossa o fez do campo para a cidade. Essa é uma das várias diferenças entre essas duas Revoluções.

A arte de várias nações do mundo tem sua forma e estilo nacionais particulares. Algumas pessoas não entendem isso. Elas rejeitam suas características nacionais e cegamente adoram o Ocidente, pensando que este é melhor em todos os aspectos. Elas até advogam por uma Ocidentalização completa. Isso está errado. Uma Ocidentalização completa é impraticável; não será aceita pelo povo Chinês. As artes e ciências naturais se diferem nessa questão. A remoção de um apêndice ou o consumo de uma aspirina não possuem forma nacional. Esse não é o caso das artes: com elas, uma questão de forma nacional, de fato, surge. Isso se dá porque a arte é uma manifestação da vida, pensamentos e emoções das pessoas, e caminha de mãos dadas com os costumes e a língua de uma nação. Historicamente, a herança artística cresce dentro da estrutura de uma nação.

A arte, música, pintura, canção, dança, literatura e teatro Chineses, têm, cada um, seu desenvolvimento histórico particular. Ao rejeitar aquilo que é Chinês, aqueles que advogam pela Ocidentalização completa dizem que as coisas Chinesas não possuem leis nem convenções, e que não as estudarão nem as desenvolverão. Isso é adotar uma posição de niilismo nacional quanto à questão da arte Chinesa.

Toda nação do mundo tem sua história, seus pontos fortes e fracos. Desde os tempos mais remotos, o excelente e o podre se envolveram e se acumularam por períodos extensos de tempo. Distinguir e separar o joio do trigo é uma tarefa árdua, mas não devemos rejeitar a história por causa desses percalços. É incorreto nos separarmos de nossa história e abandonarmos nossa herança cultural. O povo não iria aprovar.

É claro que isso não significa que não devamos aprender com países estrangeiros. Devemos aprender várias coisas estrangeiras e dominá-las; principalmente, sua teoria fundamental. Alguns advogam que aprendamos “o Chinês como substância e o Ocidental para a prática”. Essa ideia está correta? Está errada. A palavra ‘aprender’ se refere à teoria fundamental, que deve ser a mesma para o Chinês e para o Ocidental. Na teoria fundamental, não deve haver distinção entre coisas Chinesas e Ocidentais.

O Marxismo é uma teoria fundamental surgida no Ocidente. Como então podemos distinguir a forma que lidamos com aquilo que surgiu na China e aquilo que surgiu no Ocidente? Devemos, então, nos recusar a aceitar o Marxismo? A prática da Revolução Chinesa nos mostra que não aceitar o Marxismo é algo danoso para nós. Não seria razoável rejeitá-lo. No passado, a Segunda Internacional tentou negar e revisar as teorias fundamentais do Marxismo, e pôs à frente alguns argumentos para tal, que foram completamente refutados por Lênin. O Marxismo é uma verdade geral que possui aplicação universal. Nós devemos aceitá-lo. Entretanto, essa verdade geral deve ser combinada com a prática concreta da Revolução de cada nação. É somente porque o povo Chinês aceitou a teoria marxista e a combinou com a prática da Revolução Chinesa que a mesma resultou em vitória.

Nós aprendemos aquilo que vem do exterior pois queremos estudar e desenvolver o que surgiu na China. Nesse aspecto, as ciências sociais e naturais são semelhantes. Devemos dominar e aplicar tudo que há de bom em países estrangeiros e, durante o processo, desenvolvê-lo. No campo das ciências naturais devemos fazer nosso próprio trabalho criativo, utilizando-se de conhecimento científico e métodos estrangeiros para entender e organizar a herança científica Chinesa, até que possamos criar nossas próprias escolas de pensamento. Tomemos, por exemplo, a medicina Ocidental e outras áreas científicas relacionadas, como a fisiologia, patologia, bioquímica, bacteriologia e anatomia. Como podes dizer que não devemos estudá-las? Devemos estudar todas essas ciências modernas. Entretanto, alguns daqueles que estudaram as ciências médicas Ocidentais devem também estudar a medicina tradicional Chinesa e utilizar-se de seu conhecimento científico moderno para organizar e entender os antigos métodos e materiais médicos Chineses. Também devem juntar a medicina Ocidental com a Chinesa e criar uma nova e unificada ciência médica e farmacêutica Chinesa.

Se isso se aplica às ciências naturais e sociais, também se aplica à arte. Devemos aprender e absorver o que há de bom dos países estrangeiros, mas, quando isso for feito, devemos nos utilizar do mesmo conteúdo para estudar e desenvolver a arte dos vários povos da China, ou então, nosso trabalho não beneficiará ninguém. Nosso objetivo, ao estudar a arte estrangeira e suas teorias e técnicas próprias, é criar uma nova arte socialista dos vários povos da China, que possuirá seu próprio formato e estilo individual e nacional.

Precisamos reconhecer que, frente à cultura moderna, os padrões impostos pelo Ocidente são mais altos que os nossos; nos perdemos, estamos atrasados. É esse o caso da arte? Nela, temos nossos pontos fortes, mas também nossas fraquezas. Devemos ser bons em absorver características positivas de países estrangeiros, para tornar nossos resultados também positivos. Se nós nos prendermos às práticas antigas e não estudarmos literatura estrangeira, não a introduzirmos à China; se não soubermos como ouvir ou tocar música estrangeira, não estaremos fazendo o correto. Não devemos ser como a Imperatriz Viúva Tseu-Hi,¹ que, cegamente, rejeitava tudo aquilo que era do exterior. Rejeitar cegamente o estrangeiro é o mesmo que cegamente adorá-lo: incorreto e prejudicial.

Ao aprender com países estrangeiros devemos nos colocar de forma contrária ao dogmatismo e ao conservadorismo. Já sofremos politicamente com o dogmatismo. Tudo aquilo que copiamos do exterior foi adotado rigidamente, o que resultou em grandes derrotas, com o Partido nas áreas brancas perdendo 100% de suas forças, e com o Exército Vermelho perdendo 90% de suas forças, causando um atraso de vários anos na vitória da Revolução.² O motivo para tal acontecimento é que existiam alguns camaradas que não adotaram a realidade concreta como ponto de partida, mas o dogmatismo. Eles não combinaram a teoria fundamental do Marxismo-Leninismo com as práticas concretas da Revolução Chinesa. Se não tivéssemos rejeitado esse tipo de dogmatismo, a Revolução Chinesa não teria alcançado a vitória.

No campo das artes nós devemos nos utilizar dessa lição e tomar cuidado para que o dogmatismo não tome conta de nós. Estudar o externo não é o mesmo que importar tudo, tintim por tintim. Devemos aceitar as coisas de forma crítica. Devemos aprender com os antigos para que possamos beneficiar o povo de hoje, e aprender dos estrangeiros para que possamos beneficiar o povo Chinês.

Nós precisamos aprender coisas boas de países estrangeiros e coisas boas da China. Garrafas de vinagre pela metade não nos beneficiam: precisamos transformá-las em duas garrafas cheias.³ Dominaremos coisas Chinesas e estrangeiras para combiná-las em algo orgânico. Lu Xun fez isso. Ele era deveras estudado tanto nas obras Chinesas quanto nas estrangeiras, mas seu esplendor não está em suas traduções, e sim em seu trabalho criativo. Este não se prendia ao exterior, nem aos velhos tempos da China, mas ainda é Chinês. Devemos estudar o espírito de Lu Xun, dominar tanto o Chinês quanto o estrangeiro, absorver os pontos bons da arte Chinesa e da arte exterior, fundir os mesmos e criar uma nova arte com característica, forma e estilo nacionais.

É claro que não é fácil combinar coisas Chinesas com coisas estrangeiras. É um processo que demanda tempo. Existem certas coisas em que é possível juntar o Chinês com o estrangeiro. Ao escrever romances, por exemplo, a língua, personagens e o contexto devem ser Chineses, mas não precisam ser escritos na forma Chinesa de capítulos.⁴ Alguém pode, então, produzir certas coisas que não são nem Chinesas nem Ocidentais. Se o resultado não é nem um burro nem um cavalo, mas uma mula, este não é um resultado ruim. Quando duas coisas se combinam, sua forma é alterada. É impossível que continuem sem modificações. O que é da China irá mudar. Politicamente, economicamente e culturalmente, a face da China está sofrendo grandes mudanças. Entretanto, não importa quantas mudanças sofram, as coisas chinesas sempre terão suas próprias características. O exterior também muda. Após a Revolução de Outubro, a face mundial mudou fundamentalmente; depois da Segunda Guerra Mundial, essa mudança se desenvolveu rumo a um novo caminho. Temos que nos atentar à aceitação crítica de coisas estrangeiras, e, especialmente, à introdução de coisas do mundo socialista e dos progressistas do mundo capitalista.

Em resumo, a arte deve ter características criativas independentes; deve ser distintamente imbuída com a característica dos tempos e também com a característica nacional. A arte da China não deve permanecer no passado, nem se tornar cada vez mais Ocidentalizada. Deve, então, refletir as características dos tempos e da nação. Ao tentar alcançar isto, não devemos evitar a experimentação. Em especial, em um país como a China, com uma longa história e grande população, é ainda mais necessário que experimentemos, pois isso melhor atenderá às necessidades das várias nacionalidades. Não queremos homogeneidade; uniformidade leva à escrita com fórmula.⁵ Não interessa se são fórmulas Chinesas ou estrangeiras, são ambas desprovidas de vitalidade e não são aceitas pela população da China.

Há, aqui, também a questão relacionada aos intelectuais burgueses que receberam educação Ocidental. Se não tratarmos dessa questão adequadamente, teremos um efeito adverso não só na arte, mas na causa revolucionária como um todo. A burguesia nacional Chinesa e seus intelectuais consistem em alguns milhões de pessoas. Embora seus números não sejam grandes, eles possuem cultura moderna. Devemos nos unir a eles, educá-los e remodelá-los. A burguesia compradora tem, também, sua própria cultura, que é uma cultura escravocrata. Os latifundiários também têm sua cultura — cultura feudal. Os trabalhadores e camponeses Chineses, graças ao fato de terem sido oprimidos por muito tempo, ainda não possuem muito conhecimento cultural. Até o momento em que as tarefas das Revoluções Cultural e Técnica sejam totalmente concluídas, os intelectuais burgueses possuem, comparativamente, mais conhecimento e habilidade. Dado que nossa política está correta, e que podemos educá-los e remodelá-los, podemos fazer com que eles se juntem à causa do socialismo. É possível educá-los e remodelá-los? Sim. Vários dos que estão hoje aqui presentes foram intelectuais burgueses no passado, que saíram da burguesia e se juntaram ao proletariado; então porque outros não poderiam também fazê-lo? De fato, vários aqui fizeram isto. Não devemos falhar em nos unir a eles, educá-los e remodelá-los. Somente se fizermos isso eles serão benéficos à causa revolucionária da classe trabalhadora, à Revolução socialista, e à construção do socialismo.

Vocês, aqui presentes, são todos músicos. Ao estudarem a música Ocidental, vocês possuem várias responsabilidades importantes. A organização e o desenvolvimento da música Chinesa dependem de vocês, que estudam a música Ocidental, da mesma forma que o desenvolvimento da medicina Chinesa depende de médicos que estudaram a medicina Ocidental. As coisas Ocidentais que vocês estudam são úteis, mas vocês devem dominar tanto o Ocidental quanto o Chinês; não devem tentar Ocidentalizar-se por completo. Devem dedicar atenção àquilo que é Chinês e dar o seu melhor para estudar e desenvolvê-lo, com o objetivo de criar novas coisas Chinesas, com características, formato e estilo nacionais. Se entenderem essa política básica, seu trabalho terá um grandioso futuro.

Notas

1- Em 1898, a Imperatriz Viúva Tseu-Hi (1835–1908) voltou a controlar a administração da nação, a qual havia previamente abandonado em prol de seu sobrinho, o Imperador Guangxu, em 1889, e destruiu a Reforma dos Cem Dias criada por Guangxu; ela encorajou ataques dos Boxers voltados a estrangeiros.

2- Esta passagem se refere às derrotas sofridas pelos comunistas Chineses em 1933–1934, que levou ao abandono das bases em Jiangxi e em províncias vizinhas, e à Grande Marcha. Mao culpou, pelos reveses sofridos, táticas ruins impostas sobre o Partido Comunista pela ‘Facção de Estudantes Regressos’, treinados pela URSS, o conselheiro militar da Comintern Otto Braun, e as falhas dos mesmos de diferenciar as condições Chinesas das Soviéticas.

3- Há um provérbio Chinês que diz “Uma garrafa de vinagre pela metade pode ser sacudida, uma garrafa cheia não”. Aqui, Mao se utiliza dessa metáfora para indicar que o que é necessário é a síntese de elementos nacionais e estrangeiros, e não apenas a justaposição dos mesmos.

4- A forma tradicional da escrita de romances na China surgiu a partir de contadores de história. Assim, o clímax era interrompido com um gancho, que incentivava o autor a ler ou ouvir a próxima parte, algo como “Se você quer saber como o herói sai dessa furada, leia (ou ouça) o próximo capítulo”.

5- Literalmente, Mao se refere à escrita de ensaios em oito etapas. Essa forma artificial de escrita, que candidatos que participavam de exames imperiais foram submetidos a partir do século XV, se tornou uma metáfora para o pedantismo e o formalismo na China.

Textos traduzidos por membros da Comissão de Tradução da Associação Democrática Brasileira (ADB)

Textos traduzidos por membros da Comissão de Tradução da Associação Democrática Brasileira (ADB)